Neste terceiro comentário sobre Memórias Póstumas de Brás Cubas, falamos sobre os anos que Brás Cubas passou estudando na Europa e como foi o retorno dele ao Brasil, onde ele sofreu com a morte de sua mãe e viu seu pai tentar o influenciar a continuar o nome da família.

A Universidade de Coimbra e o Almocreve
Agora que estava na Europa, Brás Cubas tentava apagar as memórias de Marcela ao criar imagens do seu próprio futuro. Foi a ambição de um futuro que o fez esquecer seu primeiro amor, sendo que essa visão do horizonte se materializava num bacharelado – não importando qual fosse. Com essa nova visão em sua mente, Brás Cubas chega em Portugal para estudar na famosa Universidade de Coimbra. Acontece que, ao longo dos seus anos como estudante, ele não levou os estudos tão a série, tanto que se classificou como um universitário bem medíocre. Apesar disto, recebeu seu diploma de direito e, mesmo absorvendo quase nada da ciência, ainda assim sentia-se orgulhoso.
Após esses anos em Coimbra, Brás Cubas agora se sentia livre, tal como um escravo que recebe sua carta de alforria. Com esse sentimento de liberdade, começa a andar um pouco pelo mundo, preferindo não voltar de imediato para junto de sua família no Rio de Janeiro. Nestas andanças, acontece o episódio do almocreve (cocheiro, condutor de animais de carga).
Certo dia, quando seguia viagem com um burro, Brás Cubas foi derrubado da cela pelo animal e acabou ficando pendurado por um dos pés. Quando o animal começou a correr, seria certo que se machucaria muito ao ser arrastado, ou talvez até mesmo morresse por causa do atrito com o chão. Acontece que surgiu um almocreve na estrada neste mesmo instante e conteve o burro, salvando o nosso protagonista de uma possível morte. Agradecido por ter sido salvo, Brás Cubas percebe que o seu salvador era homem simples e pobre – muito pobre. Assim sendo, pensa em lhe dar dinheiro como recompensa e, ao perceber que possuía apenas cinco moedas de ouro, a ganância de seu coração começa a tomar conta do seu bom senso, fazendo com que Brás Cubas o presentei com apenas um mísero cruzado de prata. Se já não bastasse esse egoísmo, que ele sustentava ao argumentar que o almocreve não teve nenhum mérito além da sorte de estar por ali, logo depois Brás Cubas encontrou moedas de bronze no seu bolso e ficou arrependido de ter dado as de prata. Por misericórdia de Deus, Brás Cubas logo percebe o quão ruim foi sua atitude e o quão terríveis foram as suas reflexões, tanto que começou a sentir remorso de si mesmo por ter pensamentos tão egoístas.
O retorno para o Brasil
Vagando pela Europa, ele ficou escrevendo algumas besteiras românticas conforme viajava pelas antigas estradas do velho mundo. Após anos vivendo esta vida tão besta, Brás Cubas acata as súplicas de seu velho pai e volta para o Rio de Janeiro; como as cartas que recebeu usavam a doença de sua mãe como argumento, ele tentou vê-la uma última vez antes de sua partida, mas acabou chegando tarde demais. Foi assim o retorno dele para sua terra natal: uma triste e agonizante despedida.
Tentou superar a dor da morte de sua amada mãe e, como agora faz o relato sendo já defunto, Brás Cubas revela sem nenhuma vergonha que ele, embora tivesse muito dinheiro e viesse de uma família com influência, sempre viveu uma vida medíocre. Diz isto porque, durante a vida, nós sempre escondemos a nossa consciência atrás de pudores e outras coisas e, como agora ele já está morto, não precisa ter vergonha de dizer nada e desabafar sobre tudo.
Após se perder em seus devaneios de defunto (coisa que ele faz muito enquanto narra suas memórias), Brás Cubas tornar a contar sobre como foi o luto da morte de sua mãe. Conta que viveu isolado numa das casas da família fazendo o que bem entendia, não criando nenhum compromisso com seus familiares, com a sociedade e nem com mulher alguma; vivia assim, sem fazer nada de útil. Acontece que ele era homem, um homem jovem. Logo o tédio começou a ser insuportável e Brás Cubas precisou de um pouco de contato com o resto da humanidade, sendo assim que ele começou a se socializar novamente. Nessas conversas com os conhecidos, ficou sabendo que D. Eusébia – aquela que Brás Cubas gritou que estava beijando Dr. Vilaça – tinha recebido parte da herança que seu amante deixou após morrer. As fofocas sobre ela não lhe interessam, já que o caso que Brás Cubas dedurou aconteceu quando ele era apenas uma criança. O que acontece é que foi D. Eusébia quem vestiu o corpo da mãe de Brás Cubas quando ela morreu, fato este fez com que essa senhora lhe fosse muito querida.
Hora de virar homem
Nestes mesmos dias, o pai de Brás Cubas chega até seu filho para falar sobre uma oportunidade na política e, principalmente, de casamento. O homem, que tanto pediu para o filho voltar para casa após a conclusão dos seus estudos em Coimbra, não deve ter gostado de ver que o filho volta para casa e fica amuado e escondido no luto. Por isso, propôs que seu filho ingressasse na carreira política e, como é obvio, também queria que ele arruma-se uma noiva e se cassasse. O pai de Brás Cubas disse que lhe arranjaria uma oportunidade na política e, enquanto a noiva, bastasse que seu filho apontasse uma, pois logo seria organizado o casamento com a moça. Tais ideias não foram ofensivas para o nosso jovem rapaz, não sendo estranho para ele se imaginar casado com uma bela mulher e tendo uma posição política bem digna, embora a morte de sua mãe tenha lhe aberto a mente para perceber como a vida é frágil e nada dura para sempre. Assim, com essas questões na cabeça, não aceitou e nem recusou as duas propostas feitas por seu pai.
Eis que seu pai percebe tal indiferença e diz o nome da futura esposa de ser filho: Virgília. Esta que é a mesma mulher que o nosso defunto autor diz que será sua futura amante e que não somente estará em seu leito de morte, como também chorando muito no seu velório. Nesta época ela não tinha mais que dezesseis, embora já fosse uma mulher muito bonita. O pai de Brás Cubas descrevia a jovem como um anjo e, mais do que isso, filha de um homem com muita influência política. O pai de Brás Cubas torna a insistir nas duas propostas, dizendo que fica muito triste ao ver o filho vivendo como um homem solitário e inútil. Comenta que investiu muita em Brás para vê-lo um homem de sucesso que continue o nome da família, sendo que a carreira política é o melhor meio para isso acontecer, e que isso só aconteceria se houvesse um bom casamento.
Cansado da insistência, Brás Cubas aceita as propostas do pai, concordando em começar uma carreira política e em se casar com a jovem Virgília.

Memórias Póstumas de Brás Cubas – Edição de Luxo
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Esses foram os nossos comentários sobre Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, onde vimos como foram os anos que Brás Cubas passou estudando na Europa e como foi o retorno dele ao Brasil, onde ele sofreu com a morte de sua mãe e viu seu pai tentar o influenciar a continuar o nome da família.
Eu sou Caio Motta e convido você a continuar acompanhando os nossos comentários sobre as grandes obras de Machado de Assis, bem como demais textos da grande literatura universal presentes no nosso blog.