Neste nosso nono comentário sobre a Ilíada, falamos sobre o nono canto da epopeia, onde o rei Agamennom e os demais gregos se desesperam com a possibilidade perderem a guerra contra os troianos, tanto que enviam Odisseu e Ajax até a tenda de Aquiles para tentar convence-lo a voltar a lutar.

O desespero dos gregos
Durante a noite, enquanto o exército troiano celebra as suas vitórias com banquetes e mil fogueiras espalhadas por toda a planície, os guerreiros gregos sofrem e lamentam as suas desgraças. O medo da morte se alastra pelo acampamento grego, com os guerreiros e até os heróis pensando em fugir e abandonar a conquista de Tróia. Desesperado com a possibilidade de perder a guerra que lhe foi tão custosa nestes últimos nove anos, o rei Agamemnon convoca os chefes gregos para uma assembleia. Com lágrimas no rosto e cheio de mágoa, comenta que os gregos perderam o apoio de Zeus, sendo que foi prometido a Agamemnon que poderia voltar para casa após destruir Tróia. Com isso, diz que já chegou a hora de aceitar a derrota e voltar para casa, abandonando, de uma vez por todas, a conquista de Tróia.
Dentre todos os chefes e heróis presentes, Diomedes é o único que tem ânimo e coragem para contestar tal ideia. Diz que Agamemnon foi que lhe chamou de covarde algumas horas atrás, mas agora é ele quem está fugindo de medo dos troianos; embora Zeus tenha lhe dado o cetro e direito divino de ser rei, não lhe deu a coragem de lutar, que é o mais importante dos poderes. Fala que Agamemnon pode fugir se quiser, mas que ele e os demais gregos continuarão lutando até que conquistem os muros de Tróia.
Os presentes vibram e gritam com as palavras de Diomedes, sentindo mais uma vez a coragem sobrepujar o medo da morte. O sábio Nestor aproveita o momento e reforça as falas de Diomedes, embora peça para que ele não se zangue com a proposta de Agamemnon. Antes de dar seu parecer, pede que seja servido um banquete aos chefes convidados, pois é mais correto que estejam todos bem servidos e satisfeitos antes de dialogar numa assembleia.
Agamemnon segue os conselhos de Nestor e serve um grandioso banquete os chefes gregos que estão na assembleia. Com todos saciados e mais calmos, Nestor retoma a palavra e faz suas considerações sobre a situação dos gregos nesta guerra. Começa mencionando que Agamemnon errou ao tomar a escrava Briseide de Aquiles, fazendo com que o mais poderoso guerreiro grego se enfurecesse e se retirasse das fileiras de combate; se não fosse tão teimoso e tivesse escutado os conselhos dos demais chefes gregos, não teria ultrajado Aquiles e ele ainda estaria lutando e garantindo mais vitórias para seu exército. Como a participação de Aquiles é fundamental na guerra, não apenas pelas suas qualidades insuperáveis, mas como os favores que ele tinha dos deuses, Nestor recomenda que Agamemnon e os demais chefes gregos recuperem a confiança do filho da ninfa Tétis e tragam-no de volta para a batalha.
Apesar do seu grande orgulho, Agamemnon admite que seu maior erro foi desrespeitar Aquiles ao tomar sua querida escrava. Sendo ele um guerreiro que vale por muitos, diz que é correto se desculpar com o herói lhe oferecendo grandiosos e infinitos tesouros, além de lhe devolver a tão preciosa escrava. Para aplacar a fúria de Aquiles, Agamemnon também oferece uma de suas filhas e uma de suas cidades para o herói, podendo ele escolher a que mais lhe agradar quando todos voltarem para a Grécia.
Nestor saúda Agamemnon por sua admitir seu erro e logo ordena que emissários vão até a tenda de Aquiles para lhe oferecer esses presentes tão maravilhosos. Determina que tais emissários seja Ajax e Odisseu, já que os dois sãos grandes guerreiros e saberão se tratar com Aquiles, e também que Fenice os acompanhe, já que este foi o mentor de Aquiles.
A resposta de Aquiles
Conforme seguem caminho, Ajax e Odissey vão passando pelos Mirmidões, os guerreiros que compõem o exército de Aquiles. Próximo de sua tenda, encontram Aquiles tocando uma lira enquanto narra um poema sobre façanhas de grandes heróis; junto dele estava Pátroclo, seu amigo e escudeiro.
Aquiles os recebe e ordena que um banquete seja servido aos convidados que ele tanto preza. Depois que todos comem e saúdam aos deuses, Odisseu comenta a terrível situação que o que os guerreiros gregos se encontram, já tendo chegado a hora de Aquiles voltar para a batalha e os salvar da ruína e da morte. Diz que os troianos, que lutam sob o comando do príncipe Heitor, já cercaram os muros que foram erguidos em volta do acampamento grego e que logo conseguirão penetrar essas muralhas de madeira e incendiar toda a frota grega. Pede mais uma vez que Aquiles volte para a luta, onde oferece o pedido de desculpas de Agamemnon e os números presentes que o rei grego lhe envia, bem como a bela Breseide de volta.
Em resposta ao longo apelo de Odisseu, Aquiles diz que nada, nem mesmo todos os tesouros do mundo, o farão mudar de ideia. Explica que ele não sente nenhum desejo de enfrentar os troianos, já que eles nunca o ofenderam e nem lhe causaram qualquer prejuízo. Mostrando que ainda carrega no peito o desrespeito que sofreu de Agamemnon, Aquiles lembra mais uma vez que, apesar de ser o mais esforçado dentre os heróis gregos, foi ele quem teve seus espólios de guerra tomados; também diz que, enquanto estava lutando nas fileiras, Heitor sempre o evitou e preferiu ficar lutando próximo dos muros de Tróia, sendo que agora só avança contra o acampamento e as naus gregas por saber que Aquiles não se junta às fileiras dos gregos.
Mostrando que não se importa mais com nada que aconteça na guerra, Aquiles conta que, quando amanhecer, fará alguns sacrifícios a Zeus e então voltará para casa junto com seu exército. Manda Odisseu devolver os presentes de volta para Agamemnon, pois não lhe perdoará as ofensas. Também conta que Tétis, a ninfa divina e sua mãe, revelou as duas possíveis mortes que o Destino (Fado) lhe reservou. A primeira seria morrer jovem enquanto luta na Guerra de Troia, vindo a alcançar a glória eterna. A segunda, por outro lado, seria viver em paz em casa e ter uma vida muito longa, mas, quando viesse a morrer, seu nome seria gradativamente esquecido pelo tempo. Apesar de ter vindo para Tróia para alcançar o primeiro e glorioso destino, agora percebe que morrer lutando pela causa do traidor Agamemnon não vale o preço.
Ajax e Odisseu ficam tristes e desesperados com as palavras de Aquiles, já que, sem o auxílio dele, só resta ao exército grego morrer nas mãos de Heitor e seus guerreiros, ou fugir nas embarcações e voltar como derrotados para a Grécia.
Fenice, que já foi mentor de Aquiles na infância, toma a palavra e tenta convencê-lo, mas, ao perceber que não conseguira mudar sua opinião, diz que então acompanhará o seu pupilo. Conta a história de sua própria vida, relatando como seus erros de juventude o levaram a ser banido por ser pai e como ele veio a conhecer e servir o rei Peleu, pai de Aquiles.
Aquiles se mostra ofendido com as palavras de Fenice, já que nutria por ele um grande carinho. Ouvir da boca de uma pessoa tão querida as palavras e desejos do covarde Agamemnon deixa Aquiles ainda mais irritado. Pede para que Fenice passe a noite descansando em suas tendas pois, ao amanhecer, decidirá se continua por aqui ou se realmente volta para sua pátria junto com seu exército.
Vendo que ninguém conseguirá mudar o forte e teimoso ânimo de Aquiles, Ajax pede para que Odisseu desistia e que os dois voltem logo para seus acampamentos. Para Aquiles, diz que seu comportamento é mimado e vergonhoso, já que deixa seus conterrâneos gregos morrem apenas por ter perdido uma mera escrava. Aquiles responde dizendo que lamenta ofender o grande Ajax, mas lembra que foi Agamemnon quem ofendeu Aquiles diante de todo o exército grego. Diz que avisem Agamemnon que somente voltará para a guerra quando o Heitor destruir todas as naus gregas e se aproximar das tendas do exército dos Mirmidões.
Enquanto Fenice fica na tenda como convidado, Odisseu e Ajax retornam para Agamemnon, informando que Aquiles não só continua irado, como também recusou a imensidão de presentes que o rei grego lhe deu como forma de se desculpar. Avisa que provavelmente zarpará com seu exército ao amanhecer e voltará para a Grécia, deixando todos os demais guerreiros gregos para trás.
Os chefes gregos e demais guerreiros presentes ficam espantados com a mensagem que Ajax e Odisseu trouxeram. Diomedes diz que Agamemnon jamais deveria ter pedido ajuda de Aquiles, sendo melhor o esquecer até que mude de ideia e decida voltar ao combate; até lá, todos deveriam se alimentar e descansar para lutar no dia seguinte e proteger o acampamento e as naus contra o próximo ataque de Heitor e dos troianos.
Todos concordam e aplaudem as palavras encorajadoras de Diomedes, com eles indo comer e depois descansar.

Ilíada – Homero
Em uma tradução direto do grego feita por Carlos Alberto Nunes, está é a melhor edição para quem busca compreender uma das maiores obras literarias da humanidade.
Esses foram os nossos comentários sobre o nono canto da Ilíada, de Homero, onde que vimos que o rei Agamennom e os demais gregos se desesperam com a possibilidade perderem a guerra contra os troianos, tanto que enviam Odisseu e Ajax até a tenda de Aquiles para tentar convence-lo a voltar a lutar.
Eu sou Caio Motta e convido você a continuar acompanhando os nossos comentários sobre a grande obra Homero, bem como demais textos da grande literatura universal presentes no nosso blog.