Neste nosso quinto e último comentário sobre Caetés, vemos a surpreendente morte de Adrião e o destino de João e Luísa após o ocorrido.

Todos sabem
Após a conversa com Isidoro Pinheiro, João refletia muito sobre a morte de Adrião, imaginando que, sem ele, Luísa seria sua. É importante frisar que esses pensamentos não estavam caminhando para um desejo de matar Adrião; apenas a vontade de tomar o lugar do Teixeira como homem de Luísa. Era nisso que ele pensava.
Num dia, quando João estava jogando bilhar com alguns conhecidos, acabou se desentendo com o dr. Castro. A discussão começou por comentários sobre o julgamento que inocentou Manoel Tavares, um ladrão e assassino. Castro, que é promotor, não apelando a corte, teria aceitado sem grandes esforços que o assassino fosse inocentado pelo júri. João Valério, que ficou consternado com o resultado do caso, colocava a culpa toda em Castro e assim o clima no local começou a esquentar e o promotor, não aceitando as ofensas, respondeu insinuando que a sua consciência estava tranquila quanto as suas ações, diferente de João, que estava se envolvendo com a mulher de Adrião.
Isso foi suficiente para começar uma briga entre ambos, sendo preciso a intervenção dos demais homens presentes para que João e Castro não chegassem as vias de fato.
O questionamento de Adrião
João recebe de Adrião uma carta anônima contando que ele e Luísa estavam tendo um caso. O documento era breve, com apenas um páginas, porém muito preciso, já que relatava que o guarda-livros da Teixeira & Irmão foi visto se encontrando com Luísa. A carta até comentava a discussão de João e Castro, discussão esta que mencionaram o nome da mulher de Adrião.
O Italiano, após entregar a carta para João e deixa-lo ler, questionou-o sobre o conteúdo, perguntando se a denuncia era realmente verdadeira. João tremia de nervoso por, não somente terem descoberto, mas por estar sendo questionado diretamente pelo corno. Obviamente negou a acusação, temendo o que Adrião poderia fazer com ele e com Luísa.
Adrião ouviu a resposta, mas, como não conseguia acreditar, já que seu nome corria pela cidade inteira, disse que João deveria parar de frequentar sua casa, deixar seu cargo de guarda-livros na empresa e, após um tempo, sair da cidade. João aceitou a oferta, sendo um fim decente à toda essa situação.
A morte de Adrião
Vendo multidão de pessoas indo até a casa dos Italianos, João e Pinheiro foram até o local para saber o que estava acontecendo. No meio do caminho, sem muita dificuldade, descobrem o ocorrido: Adrião Teixeira tentou se suicidar com um tiro no peito.
Todos os conhecidos e amigos da família estavam no local, assim como um bando de curiosos enxeridos. Dr. Liberato, que eles encontram no meio do caminho, já estava cuidando de Adrião, tentando salvar a vida do homem.
Passado um tempo, o médico vem e diz Adrião estava vivo, mas o seu quadro era grave, já que a bala da arma estava alojada em seu pulmão e era impossível ser retirada. Adrião, ainda consciente, pediu para que João Valério viesse ao seu quarto. Estando os dois sozinhos, o moribundo desculpou-se, dizendo estar arrependido de ter acreditado na denúncia da carata e, uma última vez, questionou João sobre Luísa. João novamente negou as acusações e, após uma triste despedida, vai embora.
Como sempre teve uma saúde frágil, Adrião não aguentou o trauma do disparo, morrendo oito dias depois.
O destino de João e Luísa
Os pensamentos de João, enfim, tornaram-se realidade. Adrião Teixeira estava morto e, agora, não havia mais nada que impedisse João de ficar com Luísa. Sem o Italiano, agora poderia casar com Luísa, ter vários filhos com a viúva, assumir os negócios da firma Teixeira & Irmão, bem como quaisquer outros devaneios que ele tinha o costume de pensar. Porém João Valério não fez nada disso.
Após a morte do corno, João não foi mais visitar Luísa. Não tinha mais vontade de vê-la; o desejo, que antes era tão ardente que ele até dizia que era amor, agora não existia mais. Somente após dois meses, por insistência de Isidoro Pinheiro, é que João criou coragem para ir ver sua amante.
A princípio ela não quis recebe-lo, precisando ele visitar a casa durante oito dias para poder vela. Quando se encontram, já estava claro que o sentimento já tinha acabado. Tudo foi apenas passageiro, agora não sentiam mais nada um pelo outro. Cumprimentaram-se e então João deixou a casa, não ficando com Luísa.
O tempo foi passando. João abandonou de vez a escrita de seu livro Caetés, passando a assumir a função de sócio na firma junto com Vitorino Teixeira e também com Luísa. A morte de Adrião gradativamente ia saindo da memória de João, não tendo ele nenhum sentimento de culpa pelo ocorrido.
A obra termina com João refletindo sobre o que seria um caeté. Quando tentava escrever seu livro sobre os índios selvagens que habitam essas terras, João lamentava-se sobre não saber o que era caeté. Agora sabia: um caeté era alguém que se entregava à desejos sem valor que rapidamente desapareciam; alguém que vive uma vida inconstante sem concluir o que começa, sem realizar coisa alguma; alguém que anda perdido por aí sem rumo algum. Ele era um caeté, ele era um selvagem.
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Caetés – Graciliano Ramos (Editora Record)
Primeira obra do escritor Graciliano Ramos em uma nova edição publicada pela editora Record.
Esse foi o nosso quinto e último comentário sobre a obra Caetés, de Graciliano Ramos, onde vimos a surpreendente morte de Adrião e o destino de João e Luísa após o ocorrido.
Eu sou Caio Motta e convido você a continuar acompanhando os nossos comentários sobre os grandes textos de Graciliano Ramos, bem como demais textos da grande literatura universal presentes no nosso blog.