Neste nosso trigésimo comentário sobre Os Lusíadas, continuaremos a ler o terceiro canto da obra, onde Camões canta os últimos anos do reinado do rei Afonso Henriques até o dia de sua morte.

CANTO III – ESTROFE 69
Mas o Alto Deus, que para o longe guarda
O castigo daquele que merece,
(Ou para que se emende às vezes tarda,
Ou por segredos que o homem não conhece).
Se até’ qui sempre o forte rei resguarda
Dos perigos a que ele se oferece,
Agora lhe não deixa ter defesa
Da maldição da mãe que estava presa.
“Mas o Alto Deus, que para o longe guarda o castigo daquele que merece,(ou para que se emende às vezes tarda, ou por segredos que o homem não conhece (1).Se até’ qui sempre o forte rei resguarda dos perigos a que ele se oferece, agora lhe não deixa ter defesa da maldição da mãe que estava presa (2).”
(1) Continuando a contar a história de Portugal para o rei de Melinde, Vasco da Gama agora narra os últimos anos do reinado do rei Afonso Henriques. Conta que, apesar de suas grandes conquistas, ele ainda veio a receber um tardio castigo de Deus; comenta que a hora de algum castigo chegar é competência exclusiva de Deus, sendo este o motivo do rei Afonso sofrer somente agora.
(2) Diz que o monarca português sempre foi protegido por Deus dos perigos que surgiam em seu caminho, mas que agora chegou a hora do rei Afonso não ter defesa contra a maldição que adquiriu após prender sua própria mãe¹.
“Mas o Alto Deus – que as vezes tarda, ou por segredos que nós homens não conhecemos – já reservava o castigo para o forte rei Afonso Henrique que, sempre sendo protegido dos perigos, agora não terá defesa contra a maldição de ter prendido a própria mãe.”
¹conforme explicado no nosso comentário anterior sobre os Lusíadas, Camões conta que o então príncipe Afonso entrou em guerra contra sua própria mãe para adquirir os domínios do condado de Portugal. Após vencer essa guerra, ele prendeu sua mãe, sendo esta a causa da maldição que Camões atribui ao monarca.
CANTO III – ESTROFE 70
Que, estando na cidade que cercara,
Cercado nela foi dos leoneses,
Porque a conquista dela lhe tomara,
De Leão sendo, e não dos Portugueses.
A pertinácia aqui lhe custa cara,
Assim como acontece muitas vezes;
Que em ferros quebra as pernas, indo aceso
À batalha, onde foi vencido e preso.
“Que, estando na cidade que cercara, cercado nela foi dos leoneses, porque a conquista dela lhe tomara, de Leão sendo, e não dos Portugueses (1). A pertinácia aqui lhe custa cara, assim como acontece muitas vezes; que em ferros quebra as pernas, indo aceso à batalha, onde foi vencido e preso (2).”
(1) Esse castigo veio após o rei Afonso conquistar a cidade de Badajoz com seu cerco, onde ele acabou sofrendo um outro cerco do rei Fernando de Leão. O monarca vizinho lhe atacou pois, antes de estar sob comando dos mouros, Badajoz pertencia aos leoneses.
(2) Camões comenta o quão caro foi a obstinação do rei Afonso, com ele sofrendo um acidente durante o cerco e quebrando as pernas, sendo está a causa de sua derrota e de sua captura.
“O rei Afonso Henriques, após conquistar a cidade de Badajoz com seu cerco, sofreu um cerco do Fernando de Leão, já que a cidade pertencia ao reino de Leão, não do reino de Portugal. A obstinação, como muitas vezes acontece, custou caro ao monarca portugueses, com ele sofrendo um acidente que lhe quebrou as pernas e, por causa da lesão, sendo derrotado e preso.”
CANTO III – ESTROFE 71
Ó famoso Pompeu, não te pene
De teus feitos ilustres à ruína!
Nem ver que a justa Nêmesis ordene
Ter teu sogro de ti vitória dina,
Posto que o frio Fásis, ou Siene
Que para nenhum cabo a sombra inclina,
O Bootes gelado e a linha ardente,
Temessem o teu nome geralmente;
“Ó famoso Pompeu, não te pene de teus feitos ilustres à ruína!(1) Nem ver que a justa Nêmesis ordene ter teu sogro de ti vitória dina, posto que o frio Fásis, ou Siene que para nenhum cabo a sombra inclina, o Bootes gelado e a linha ardente, temessem o teu nome geralmente (2);”
(1) Ao comentar esta derrota sofrida pelo rei Afonso, Camões o compara com outros grandes generais que também foram derrotados. Começa o comparando com o famoso romano Pompeu Magno, este que jamais sentiria pesar por seus granes feitos terminarem numa derrota.
(2) Também diz que Pompeu não deve sentir nenhum pesar pela deusa Nêmesis fazer com que Júlio Cesar, seu sogro, o derrote. Lembra que seu nome será lembrado e temido no frio Fásis, a cidade de Seiene que não inclina nenhum lado a sombra e as terras do gelado Bootes.
“Ó famoso Pompeu Magno, não sinta o pesar de teus grandes feitos terminarem em derrota! Também não sinta o pesar de ver que Nêmesis faça com que Cesar, teu sogro, o derrote, já que o seu nome já foi temido no frio Fásis, a cidade de Seiene, que nenhum lado se inclina a sombra e as terras do gelado Bootes.”
CANTO III – ESTROFE 72
Posto que a rica Arábia e que os feroces,
Heníocos e Colcos, cuja fama
O véu dourado estende, e os Capadoces
E Judéia, que um Deus adora e ama,
E que os moles Sofenos e os atroces
Cilícios, com a Armênia que derrama
As águas dos dous rios, cuja fonte
Está noutro mais alto e santo monte;
“Posto que a rica Arábia e que os feroces,Geníocos e Colcos, cuja fama o véu dourado estende(1), e os Capadoces e Judéia, que um Deus adora e ama, e que os moles Sofenos e os atrocesCilícios, com a Armênia que derrama as águas dos dous rios, cuja fonte está noutro mais alto e santo monte (2);”
(1) Continuando a comparação, diz que Pompeu Magno não deveria sentir o pesar de sua derrota, já que antes conseguir vencer a rica Arábia, os povos Geníocos e também os Colos, estes que são famosos pelo Velocino de Ouro;
(2) Também já venceu Capadoces e a Judéia, que Deus adora e ama; também venceu os Sofeno, os atrozes Cilícios e a Armênia, esta que derrama as águas dos rios Tigre e Eufrates, que têm nascente no alto e santo monte Arat.
“Não sinta o pesar derrota, Pompeu, porque antes já conseguiu vencer a rica Arábia, os Geníocos e também os Colos, que são famosos por causa do Velocino de Ouro; também já vencestes Capadoces e a Júdeia, que Deus adora e ama; também vencesse os Sofeno, os atrozes Cilícios e a Armênia, que derrama as águas dos rios Tigre e Eufrates que tem nascente no alto e santo monte Arat.”
CANTO III – ESTROFE 73
E posto enfim que desde o mar de Atlante
Até o cítico Tauro, monte erguido,
Já vencedor te vissem, não te espante
Se o campo Emátio só te viu vencido;
Porque Afonso verás soberbo e ovante,
Tudo render e ser depois rendido:
Assim o quis o concelho alto celeste,
Que vença o sogro a ti, e o genro a este.
“E posto enfim que desde o mar de Atlante até o cítico Tauro, monte erguido, já vencedor te vissem, não te espante se o campo Emátio só te viu vencido (1); porque Afonso verás soberbo e ovante, tudo render e ser depois rendido: assim o quis o concelho alto celeste, que vença o sogro a ti, e o genro a este (2).”
(1) Terminando a comparação, diz que Pompeu não deveria sentir o pesar da derrota, já que foi vencedor desde o mar Atlante até monte Cítica, só sendo derrotado campo Emátio, na Tessália.
(2) O rei Afonso, que tudo venceu, acabou vencido, sendo vontade do Divino Céu (alto celeste) que ele fosse vencido por Fernando II, seu genro.
“E, enfim, Pompeu, não sinta o pesar da derrota, pois já venceu desde o mar Atlante até monte Cítica; apenas o campo Emático, na Tessália, te viu ser derrotado. Verás o soberbo Afonso Henrique, a quem tudo venceu, depois ser vencido, pois assim quis o Divino Céu: que Júlio Cesar, seu sogro, vença Pompeu Magno e que Fernando II, genro de Afonso, o vencesse.”
CANTO III – ESTROFE 74
Tornado o rei sublime finalmente
Do divino juízo castigado,
Depois que em Santarém soberbamente
Em vão dos sarracenos foi cercado;
E depois que mártire Vicente
O santíssimo corpo venerado
Do Sacro promontório conhecido
À cidade ulisséia foi trazido;
“Tornado o rei sublime finalmente do divino juízo castigado, depois que em Santarém soberbamente em vão dos sarracenos foi cercado (1); e depois que mártire Vicente o santíssimo corpo venerado do Sacro promontório conhecido à cidade ulisséia foi trazido (2);”
(1) Depois de ser cercado pelos muçulmanos em Santarém, o sublime rei Afonso retorna de seu castigo.
(2) O monarca português volta para casa junto com o corpo de São Vicente, que foi trazido do Sacro promontório à cidade de Lisboa (cidade ulisséia).
“O sublime rei Afonso Henriques, após sofrer um cerco dos mouros em Santarém, retorna do castigo do Juiz Divino junto com o corpo venerado e santíssimo corpo do mártir Vicente que foi trazido do Sacro promontório à cidade de Lisboa.”
CANTO III – ESTROFE 75
Por que levasse avante seu desejo
Ao forte filho manda o lasso velho,
Que às terras passasse d’Alentejo,
Com gente, e c’o belígero aparelho.
Sancho, d’esforço e d’ânimo sobejo,
Avante passa, e faz correr vermelho
O rio que Sevilha vai regando,
C’o sangue mauro, bárbaro e nefando.
“Por que levasse avante seu desejo ao forte filho manda o lasso velho, que às terras passasse d’Alentejo, com gente, e c’o belígero aparelho (1).Sancho, d’esforço e d’ânimo sobejo, avante passa, e faz correr vermelho o rio que Sevilha vai regando,c’o sangue mauro, bárbaro e nefando (2).”
(1) Como o rei Afonso já sentia o cansaço da velhice mas ainda desejava de expandir mais seus domínios, manda que seu filho Sancho atacasse as terras do Alentejo.
(2) Sendo muito capaz e estando muito animado, o príncipe Sancho acata as ordens de seu pai, pintando o Guadalquivir, o rio que rega as águas de Sevilha, com o sangue dos bárbaros mouros.
“Já estando cansado mas ainda querendo realizar os seus desejos, o rei Afonso Henriques manda que Sancho, seu filho, atacasse as terras de Alentejo. Como era muito capaz, o príncipe obedece às ordens do pai e pinta com sangue dos bárbaros mouros o Guadalquivir, o rio que rega as águas de Sevilha.”
CANTO III – ESTROFE 76
E com esta vitória cobiçoso,
Já não descansa o moço, até que veja
Outro estrago, como este temeroso,
No bárbaro que tem cercado Beja.
Não tarda muito o príncipe ditoso
Sem ver o fim daquilo que deseja.
Assim estragado o Mouro, na vingança
De tantas perdas põe sua esperança.
“E com esta vitória cobiçoso, já não descansa o moço, até que veja outro estrago, como este temeroso, no bárbaro que tem cercado Beja (1).Não tarda muito o príncipe ditoso sem ver o fim daquilo que deseja.Assim estragado o Mouro, na vingança de tantas perdas põe sua esperança (2).”
(1) O príncipe Sancho não descansa após está vitória, pois deseja derrotar os mouros outra vez, tanto que logo faz um cerco contra esses bárbaros em Beja.
(2) Não demora muito para que o príncipe consiga a outra vitória que tanto deseja, fazendo o califa derrotado que teve tantas perdas depositar sua fé em uma vingança.
“O príncipe Sancho nem mesmo descansa após essa vitória, cobiçando outra vez ver a derrota dos mouros bárbaro, vai e cera Beja. Não demora muito para que ele encontre o que deseja, fazendo o califa que fora morto depositar suas esperanças na vingança.”
CANTO III – ESTROFE 77
Já se ajuntam do monte, a quem Medusa
O corpo fez perder que teve o céu;
Já vem do promontório d’ Ampelusa,
E do Tinge, que assento foi de Anteu;
O morador de Abila não se escusa;
Que também com suas armas se moveu,
Ao som da mauritana e ronca tuba
Todo o reino que foi do nobre Juba.
“Já se ajuntam do monte, a quem Medusa o corpo fez perder que teve o céu; já vem do promontório d’ Ampelusa, e do Tinge, que assento foi de Anteu (1); o morador de Abila não se escusa; que também com suas armas se moveu, ao som da mauritana e ronca tuba todo o reino que foi do nobre Juba (2).”
(1) Buscando essa vingança contra o príncipe Sancho, os mouros reúnem suas tropas no monte Atlas, este que foi um Titã até ser transformado em montanha pela Medusa; algumas destas tropas já chegam vindas da Ampelusa e de Tinge, que já foi morada do gigante Anteu.
(2) Os mouros de Abila também não deixam de mobilizar suas tropas (armas), marchando com o som das tumbas até a península Hispânica, que já fez parte do reino do mouro Juba.
“Em pouco tempo se ajuntam as tropas dos mouros no monte Atlas, este que foi transformado em montanha pela Medusa. As tropas chegam vindos de Ampelusa e de Tinge, que foi morada de Anteu, sendo que os mouros de Abila não deixam de participar, avançando com o som das tubas para a península Hispânica, que já fez parte do reino da Mauritânia.”
CANTO III – ESTROFE 78
Entrava com toda esta companhia
O Mir-almuminim em Portugal;
Treze Reis mouros leva de valia,
Entre os quais tem o cetro imperial.
E assim fazendo quanto mal podia
O que em partes podia fazer mal,
Dom Sancho vai cercar Santarém;
Porém não lhe sucede muito bem.
“Entrava com toda esta companhia o Mir-almuminim em Portugal; treze Reis mouros leva de valia, entre os quais tem o cetro imperial (1). E assim fazendo quanto mal podia o que em partes podia fazer mal,Dom Sancho vai cercar Santarém; porém não lhe sucede muito bem (2).”
(1) Deste exército que ia contra o príncipe Sancho, destacava-se as forças do Miramolim, que trazia três valiosos reis sob o comando de seu cetro imperial.
(2) Essas forçam todas avançam pelo reino de Portugal fazendo todo o mal que podiam até cercarem o príncipe Sancho em Santarém, que acaba sendo muito ferido.
“Miramolim, imperador do Marrocos, avança com seu exército contra Portugal acompanhado de três valorosos reis mouros. Avançava fazendo o quanto mais mal podia na região, além de um cerco em Santarém contra Dom Sancho, este que acaba muito ferido.”
CANTO III – ESTROFE 79
Dá-lhe combates ásperos, fazendo
Ardis de guerra mil, o Mouro iroso;
Não lhe aproveita já trabuco horrendo,
Mina secreta, aríete forçoso:
Porque o filho de Afonso, não perdendo
Nada do esforço e acordo generoso,
Tudo provê com ânimo e prudência;
Que em toda a parte há esforço e resistência.
“Dá-lhe combates ásperos, fazendo ardis de guerra mil, o Mouro iroso; não lhe aproveita já trabuco horrendo, mina secreta, aríete forçoso (1): porque o filho de Afonso, não perdendo nada do esforço e acordo generoso, tudo provê com ânimo e prudência; que em toda a parte há esforço e resistência (2).”
(1) O irado imperador Mirabolim trava um áspero combate contra o príncipe Sancho, utilizando trabucos, minas e aríetes contra o português.
(2) Apesar disto, estas táticas não surtem grande efeito, pois o filho do rei Afonso mostra o esforço e resistência dos portugueses com ânimo e prudência durante o cerco.
“O irado Miramolim trava um combate áspero contra o príncipe d. Sanches. Ele utiliza o trabuco horrendo, a mina secreta e o forte aríete, mas nada surte efeito contra o filho de Afonso, que resiste com ânimo e prudência ao cerco, mostrando o esforço e resistência dos portugueses.”
CANTO III – ESTROFE 80
Mas o velho, a quem tinham já obrigado
Os trabalhosos anos ao sossego,
Estando na cidade cujo prado
Enverdecem as águas do Mondego,
Sabendo como o filho está cercado,
Em Santarém, do mauro povo cego,
Se parte diligente da cidade;
Que não perde a presteza co’a idade.
“Mas o velho, a quem tinham já obrigado os trabalhosos anos ao sossego, estando na cidade cujo prado enverdecem as águas do Mondego (1), sabendo como o filho está cercado, em Santarém, do mauro povo cego, se parte diligente da cidade; que não perde a presteza co’a idade (2).”
(1) Aposentado dos combates, o rei Afonso neste momento estava em Coimbra, a cidade cujo o prado enverdece as águas do rio Mondego.
(2) Ao saber sobre o cerco que os muçulmanos faziam contra seu filho em Santárem, o monarca português mostra que não perdeu a sua prontidão com a idade, partindo apressado para socorrer o príncipe Sancho.
“Mas o velho rei Afonso Henriques, já tendo se afastado dos combates, estava na cidade de Coimbra, cujo prado enverdece as águas do Mondego; ao descobrir que o filho estava cercado pelos cegos mouros, parte apressadamente para Santarém, mostrando quenão perdeu a prontidão com a idade.”
CANTO III – ESTROFE 81
E co’a gente à guerra usada,
Vai socorrer o filho; e assim ajuntados,
A portuguesa fúria costumada
Em breve os mouros tem desbaratados.
A campina, que toda está qualhada
De marlotas, capuzes variados,
De cavalos, jaezes, presa rica,
De seus senhores mortos cheia fica.
“E co’a gente à guerra usada, vai socorrer o filho; e assim ajuntados, a portuguesa fúria costumada em breve os mouros tem desbaratados (1). A campina, que toda está qualhada de marlotas, capuzes variados, de cavalos, jaezes, presa rica, de seus senhores mortos cheia fica (2).”
(1) Estando com a experiente tropa portuguesa, o rei Afonso parte para socorrer seu filho. Estando ambos juntos, Afonso e Sancho mostram a poderosa fúria portuguesa ao destruir o exército dos mouros.
(2) Após a batalha, os campos de Santarém ficam cobertos de marlotas, capuzes, arreios de cavalos e dos bens valiosos dos corpos mortos.
“O rei Afonso Henriques, estando junto com a experiente e famosa tropa portuguesa, vai socorrer seu filho Sancho e, estando ambos juntos, destroem o exército dos mouros. Os campos de Santarém ficam tomados de espólios após a batalha, com marlotas, capuzes, arreios e outros bens dos corpos dos mortos.
CANTO III – ESTROFE 82
Logo todo o restante se partiu
De Lusitânia, postos em fugida:
O Mir-almuminim só não fugiu
Porque antes de fugir lhe foge a vida.
A quem está vitória permitiu,
Dão louvores e graça sem medida:
Que em casos tão estranhos, claramente
Mais peleja o favor de Deus, que a gente.
“Logo todo o restante se partiu de Lusitânia, postos em fugida: o Mir-almuminim só não fugiu porque antes de fugir lhe foge a vida (1). A quem está vitória permitiu, dão louvores e graça sem medida: que em casos tão estranhos, claramente mais peleja o favor de Deus, que a gente (2).”
(1) Após ser derrotado pelos portugueses, todo o exército mouro foge da região da Lusitânia, exceto o imperador Miramolim, que perdeu sua vida durante a batalha.
(2) O povo de português louva e agradece imensamente os guerreiros que conquistaram essa vitória pois, em situações como essa, Deus favorece mais quem combate do que o povo.
“Logo todo o exército dos mouros deixou a Lusitânia em fuga, com exceção do imperador Miramolim, que perdeu a vida na batalha. Os portugueses louvam e agradecem imensamente a aqueles que conquistaram essa vitória, porque em casos tão extraordinários como esse, Deus claramente favorece mais os combatentes que o povo.”
CANTO III – ESTROFE 83
De tamanhas vitórias triunfava
O velho Afonso, príncipe subido,
Quando quem tudo enfim vencendo andava
Da larga e muita idade foi vencido.
A pálida doença lhe tocava
Com fria mão o corpo enfraquecido;
E pagaram seus anos deste jeito
À triste Libitina seu direito.
“De tamanhas vitórias triunfava o velho Afonso, príncipe subido, quando quem tudo enfim vencendo andava da larga e muita idade foi vencido (1). A pálida doença lhe tocava com fria mão o corpo enfraquecido; e pagaram seus anos deste jeito à triste Libitina seu direito (2).”
(1) O velho Afonso Henriques, o príncipe que se elevou a rei e triunfou em tantas vitórias, enfim veio a morrer por causa da sua longa idade.
(2) A pálida e gelada mão da doença veio a tocar seu corpo enfraquecido, fazendo com que seus anos pagassem tributos à triste deusa Libitina¹.
“O velho rei Afonso Henriques, enobrecido príncipe que teve tantas vitórias triunfantes, enfim veio a morrer por causa da longa idade. A pálida doença veio lhe tocar o seu corpo com sua fria mão e, desta forma, seus anos pagaram os tributos à triste Libitina.”
¹Libitina é a deusa romana da morte, simbolizando o fim da vida do rei Afonso.
CANTO III – ESTROFE 84
Os altos promontórios o choraram,
E dos rios as águas saudosas,
Com semeados campos alagaram
Com lágrimas correndo piedosas.
Mas tanto pelo mundo se alargaram
Com fama suas obras valerosas,
Que sempre no seu reino chamarão
“Afonso, Afonso” os ecos; mas em vão.
“Os altos promontórios o choraram, e dos rios as águas saudosas, com semeados campos alagaram com lágrimas correndo piedosas (1). Mas tanto pelo mundo se alargaram com fama suas obras valerosas, que sempre no seu reino chamarão “Afonso, Afonso” os ecos; mas em vão (2).”
(1) Os altos montes de Portugal choram com a morte do rei Afonso; os rios, com suas águas saudosas, alagam os campos semeados com suas lágrimas piedosas.
(2) Mas, apesar de sua morte, os grandes feitos do rei Afonso ficaram conhecidos em todo o mundo, com os ecos de Portugal sempre chamando o seu grande nome.
“Os montes choraram com a morte do rei Afonso Henriques, enquanto os rios, com suas águas saudosas, alagaram os campos semeados com lágrimas piedosas. Mas as obras do monarca português ficarão conhecidas em todo o mundo, com ecos em Portugal sempre chamando: “Afonso, Afonso”, mas em vão.”
CANTO III – ESTROFE 85
Sancho, forte e mancebo, que ficara
Imitando seu pai na valentia,
E que em sua vida já s’ experimentara,
Quando o Bétis de sangue se tingia
E o bárbaro poder desbaratara
Do Ismaelita rei de Andaluzia;
E mais quando os que Beja em vão cercaram,
Os golpes de seu braço em si provaram,
“Sancho, forte e mancebo, que ficara imitando seu pai na valentia, e que em sua vida já s’ experimentara (1), quando o Bétis de sangue se tingia e o bárbaro poder desbaratara do Ismaelita rei de Andaluzia; e mais quando os que Beja em vão cercaram, os golpes de seu braço em si provaram (2)”
(1) Com a morte do rei Afonso, o trono passaria para seu filho Sancho, sendo que este jovem e forte príncipe já se mostrou capaz ao replicar os feitos militares de pai.
(2) Sancho já tinha se destacado quando tingiu o rio Guadalquivir com sangue dos bárbaros mouros e quando provou sua força durante o cerco dos mouros em Beja.
“O jovem e forte príncipe D. Sancho já se mostrou capaz ao replicar os feitos militares de seu pai, como quando tingia com o sangue dos bárbaros mouros o rio Guadalquivir e quando repeliu o cerco dos mouros em Beja.”
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Os Lusíadas (Edição Didática) – Volume I
Obra completa de Camões com notas e comentários de Francisco de Sales Lencastre, sendo a melhor edição para quem busca compreender todos os detalhes deste grande épico.

Os Lusíadas (Edição Didática) – Volume II
Obra completa de Camões com notas e comentários de Francisco de Sales Lencastre, sendo a melhor edição para quem busca compreender todos os detalhes deste grande épico.
Esses foram os nossos comentários sobre a sexagésima nona até a octogésima quinta estrofe do terceiro canto de Os Lusíadas, onde Camões canta os últimos anos do reinado do rei Afonso Henriques até o dia de sua morte.
Eu sou Caio Motta e convido você a continuar acompanhando os nossos comentários sobre a grande obra de Camões, bem como demais textos da grande literatura universal presentes no nosso blog.