Neste nosso segundo comentário sobre Rei Lear, falamos sobre o segundo ato da peça, onde vemos que Edmund, o filho bastardo de Gloucester, consegue manipular seu pai e se livrar de seu irmão Edgar, e também vemos o real tratamento que Lear recebe de suas filhas.

A armadilha de Edmund
O segundo ato da peça começa no castelo de Gloucester. Edmund recebe a notícia de que a princesa Regan e seu marido, o duque de Cornwall, visitarão o castelo nesta noite. Ao questionar o motivo de tal visita, o mensageiro comenta que, segundo rumores, Cornwall e Albany parecem querer entrar em guerra um contra o outro pelo controle de Grã-Bretanha.
Edmund fica feliz com a notícia, já que está é uma excelente oportunidade para ele avançar com os seus planos. Quando chega Edgar, Edmund o engana dizendo que Gloucester mandou prendê-lo por traição e que é melhor que Edgar fuja antes que seja capturado. Ouvindo a aproximação de alguém, ambos fingem que lutam e Edgar foge do castelo. Entra Gloucester procurando Edgar, mas fica frustrado por perde-lo por poucos instantes. Edmund, querendo manipular seu pai ainda mais contra seu irmão, diz que Edgar estava tentando convencê-lo a matar Gloucester, mas, quando não obteve sucesso, atacou seu irmão bastardo e fugiu.
Enquanto Gloucester amaldiçoa seu filho traidor e diz que, se ele for encontrado nestas terras, será condenado à forca, chega o duque de Cornwall e Regan, esposa do duque. Como o conde de Gloucester tem Cornwall como patrono, ele recebe-o em seu castelo. Estando todos juntos, eles conversam sobre a traição de Edgar. Regan, que já nutri um profundo desprezo por seu próprio pai, comenta que Edgar sempre andava com Lear, sendo está a provável má influência que lhe mostrou o caminho da traição; diz que tamanha é confusão que os acompanhantes de Lear causam que eles todos foram expulsos do castelo de Albany e agora pretendem vir para Cornwall.
O duque Cornwall, que também já está manipulado pelas mentiras de Edmund, saúda a lealdade do filho bastardo, pois não aceitou as mentiras de seu irmão e até saiu ferido para proteger seu pai.
A lealdade de Kent
Em frente ao castelo de Gloucester, Oswald, que foi enviado até ali pela princesa Goneril, acaba se deparando com Kent, que foi enviado pelo rei Lear, sendo que Oswald também não sabe que este cavaleiro é conde de Kent disfarçado. Como reconheceu Oswald, já que foi o conselheiro da princesa Goneril que destratou Lear e seus cavalerios, Kent insulta o serviçal; também sabe que as intenções dele em Gloucester vão contra o bem de Lear. Tamanha é a raiva de Kent que ele saca a espada e o fere com a arma. Oswald só não acaba morto pois chega Edmund para salvá-lo. Gloucester, Cornwall e Regan também chegam e, ao questionarem Kent, veem que o cavaleiro realmente deseja matar Oswald, embora não entendam que ele odeia a personalidade desleal do servo da princesa Goneril que é oposta à sua própria.
Todos acabam ficando do lado de Oswald e repudiam as ações de Kent, tanto que o prendem em um tronco como punição. O único que se opõem a tal castigo é Gloucester, pois sabe que quem deveria punir o cavaleiro seria o próprio rei e que só se prendem no toco os larápios e malandros, não cavaleiros violentos.
Apesar do apelo de Gloucester, Kent é preso no toco. Sozinho no castigo, Kent lamenta o estado das coisas e pede aos céus que Cordélia, sendo a melhor de todas as irmãs, consiga um milagre para ele.
O sofrimento de Edgar
Na floresta do condado de Gloucester, Edgar fica escondido de seu pai e de seus soldados. Vendo que não tem nenhum outro lugar para fugir, já que seria facilmente reconhecido e preso, Edgar decide abraçar a mendicância. A partir de agora ele se vestira com trapos ou quase nenhuma roupa e se passaria a mostrar-se como louco, embora bem pareça que ela já esteja assim.
As verdadeiras faces de Goneril e Regan
De volta ao toco onde Kent está preso, Lear e seu Bobo passam pelo local e encontram o cavaleiro aprisionando. Ao ser questionado sobre o motivo de receber um castigo tão cruel, Kent responde que ofendeu Goneril e Regan ao dizer-lhes a verdade; como tinha atacado o subordinado de Regan, já que o reconheceu de quando ele desrespeitou Lear. Por causa disso, agora o cavaleiro está preso.
Lear fica profundamente magoado com o relato do seu cavaleiro, pois Regan, ao tomar essas ações, mostra que é tão mesquinha e cruel quanto Goneril, sua irmã. Querendo falar com ela, parte para o castelo sozinho, deixando o Bobo e Kent onde estão. Mantendo a sua personalidade, o Bobo faz chacota da situação de Kent dizendo que ele só está nesta situação por estar seguindo Lear e que estas são as consequências de seguir alguém como ele.
Eis que Lear volta acompanhado de Gloucester, sendo que o rei está revoltado com o tratamento que acabou de receber no castelo; ele, mesmo sendo rei e pai, não foi recebido por Cornwall e Regan. Também fica mais revoltado com o castigo de Kent, já que o duque e sua filha também ignoram o pedido para livrar o cavaleiro deste castigo.
O conde Gloucester volta sozinho para o castelo para tentar falar com o duque e, algum tempo depois, retorna acompanhado de Cornwall e Regan. Ambos saúdam Lear e libertam Kent de seu castigo. Quando Lear comenta o quão foi desrespeitado por Goneril, pois ela reduziu a pouca autoridade do rei e mandou que diminuísse a sua guarda pessoal, Regan diz que não acha tal atitude errada; para ela, o caos causado pelos cavaleiros e pelo próprio rei são inaceitáveis, sendo melhor que ele, já estando velho, voltasse atrás com suas palavras e pedisse perdão para Goneril.
Surpreso com tais palavras, Lear diz que jamais faria isso, pois Goneril feriu profundamente os sentimentos do pai com suas palavras e atitudes. Lear fala que, mesmo dizendo isso, Regan ainda é a filha gentil que jamais magoaria seu pai. Eis que Goneril chega no castelo e se encontra com todos os presentes. Lear mostra que está descontente com tratamento que recebeu dela em seu castelo, embora Goneril diga que não fez nada de errado.
Lear questiona quem ordenou que Kent, seu leal e misterioso cavaleiro, fosse preso no toco como um ladrão vagabundo. Cornwall responde que foi ele quem prendeu Kent, pois o cavaleiro cometeu terríveis desacatos no castelo. Regan emenda dizendo para o seu pai que ele, já sendo velho e fraco, deve aceitar as condições impostas por Goneril e ceder metade de seus cavaleiros. Ao ouvir isso, Lear diz que prefere se tornar mendigo e viver na pobreza do que voltar para Goneril. Para ele, qualquer sofrimento seria pequeno quando comparado a presença terrível de Goneril. Diz que vai ficar morando no castelo de Cornwall e Regan junto com sua guarda de cem cavaleiros.
Não querendo assumir a responsabilidade de cuidar de seu velho pai, tão pouco de sua guarda de cem homens, Regan tenta convencer Lear a ficar com Goneril, mas, ao ver que não tem escolha, diz que somente aceitará uma guarda de, no máximo, vinte e cinco cavaleiros. Lear fica boquiaberto com o tratamento que recebe de suas filhas herdeiras. Elas, que receberam cada uma metade de seu grandioso reino, agora tratam seu velho pai como um problema e um incômodo. Como cinquenta cavaleiros ainda são o dobro do que vinte e cinco, Lear diz que prefere voltar e ficar com Goneril. Vendo que seu pai decidiu ficar em seu castelo, Goneril diz que ele não precisa dos vinte e cinco, assim como não precisa de nenhum, já que os criados de sua casa são suficientes para as necessidades de seu pai.
Incrédulo, Lear foge das duas com seu Bobo e Kent, decidido a não ficar com nenhum de suas filhas ingratas. Quando sai, uma forte tempestade começa a cair sobre o reino e Gloucester vai atrás do rei. Quando Gloucester volta, diz para as princesas que seu pai está furioso, porém elas não se importam e seguem firmes com a decisão de abolir a guarda de Lear. Para se proteger da tempestade, elas mandam trancar as portas do castelo, deixando todos que saíram para fora.

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Esse foi o nosso comentário sobre o segundo ato de Rei lear, onde falamos que Edmund, o filho bastardo de Gloucester, consegue manipular seu pai e se livrar de seu irmão Edgar, e também o real tratamento que Lear recebe de suas filhas.
Eu sou Caio Motta e convido você a continuar acompanhando os nossos comentários sobre a grande obra de Shakespeare, bem como demais textos da grande literatura universal presentes no nosso blog.