Neste nosso quarto comentário sobre Rei Lear, falamos sobre o quarto ato da peça, onde Gloucester conhece o louco Tom, mas não sabe que é Edgar disfarçado. Também vemos que as forças francesas invadem a Grã-Bretanha e se preparam para enfrentar o exército inglês comandado por Edmund.

O reencontro de Edgar e Gloucester
O quarto ato da peça começa com Edgar sozinho numa planície. Ainda se passando por um mendigo louco chamado Tom, ele reflete sobre a sua situação e percebe que é melhor vestir trapos e fingir que está louco do que viver com bajuladores que o perseguiram. Eis que chega Gloucester guiado por um velho, já que agora o conde está cego por causa das torturas do duque de Cornwall. Como Edgar está num canto, Gloucester e o velho não o percebem. Gloucester pede para que o velho o abandone pois, já que foi cego todo este tempo com seus olhos e não percebeu que foi injusto com Edgar, agora não deve fazer diferença ter ou não ter os glóbulos na cara.
O louco Tom (Edgar) é percebido pelo velho, que logo fala para Gloucester sobre a aproximação do mendigo. Edgar fica sem saber o que dizer, pois antes ficava fazendo piadas das coisas, mas agora não consegue tirar sarro da desgraça de seu próprio pai. Como Gloucester pediu para o velho o abandonar, ele pede para Tom o guiar até chegarem em Dover, sendo este grande é mal dos nossos tempos: um louco guiando um cego. Edgar aceita, embora já não consiga mais fingir ser quem não é.
Gloucester lhe entrega uma bolsa com bens muito valiosos e pede para que Tom o leve até Dover, mais precisamente num penhasco à beira mar que fica na região.
A honra de Albany
Goneril, Edmund e o criado Oswald chegam no palácio do ducado de Albany. A duquesa questiona seu criado o motivo de seu marido, o duque, não os receber agora que chegaram, onde Oswald responde que o seu mestre não reagiu bem ao saber dos ocorridos em Gloucester, repreendendo as ações tomadas por Cornwall. Ao ouvir isso, Goneril sussurra para Edmund retornar para Cornwall e preparar suas tropas, pois Albany não passa de um covarde inútil. Goneril também aproveita a situação para seduzir Edmund, lhe dando um beijo e uma lembrança.
Quando Goneril está sozinha, o duque de Albany vem para receber sua esposa. Os dois começam a discutir, com Goneril dizendo que esperava uma recepção melhor de seu esposo, enquanto Albany responde que ela não vale nada, pois somente a pior das pessoas faria tal coisa contra o próprio pai. Goneril responde acusando Albany de traição por dar suporte as tropas francesas que invadem a Grã-Bretanha. Revoltado com tais acusações, o duque pensa em agredi-la, mas consegue se controlar dizendo que Goneril só está viva porque é uma mulher.
Eis que chega um mensageiro informando os dois que Conwall foi assassinado. Segundo a mensagem, o duque morreu pelas mãos de um criado quando arrancar os olhos de Gloucester. O mensageiro também entrega uma carta de Regan para Goneril, esta que teme pois, estando sua irmã viúva, Edmund pode escolher Regan no seu lugar.
Albany fica espantado com o relato e jura que vingará Gloucester, já que ele sempre foi leal ao rei Lear.
A invasão francesa
No acampamento francês perto de Dover, Kent questiona um cavaleiro sobre o motivo do rei da França, que acabou de chegar com suas tropas na Grã-Bretanha, decidir voltar para o seu reino. O oficial francês responde que repentinamente surgiram algumas questões na França que obrigaram o monarca a retornar para sua casa, mas que ele deixou um general para comandar as suas forças. O cavaleiro também diz que a princesa Cordélia ficou profundamente abalada quando soube o que suas irmãs fizeram com seu pai, tanto que até derramou lágrimas de tristeza. Kent comenta que, apesar de estar arrependido, Lear não tem coragem de ver sua filha, pois tamanha é a vergonha do que fez.
Como o cavaleiro sabe sobre seu disfarce, Kent pede para que ele guarde seu segredo, já que não demorará muito para que ele mostre ser ele mesmo.
No mesmo acampamento, Cordélia conversa com um médico sobre a situação mental de seu pai. Diz que seu estado é perigo e ordena que soldados vasculhem a área para encontrá-lo. Ao questionar se existe alguma cura para a enfermidade mental de seu pai, o médico responde Cordélia dizendo que nesta situação o repouso poderia ajudar.
Eis que chega um mensageiro avisando que as forças britânicas se aproximam para o embate. Cordélia diz que já esperava a aproximação e comenta que a invasão francesa nada mais é que um esforço do rei da França por sua esposa, já que ele se apiedou ao ver as lágrimas de sua esposa e decidiu interceder por Lear.
No castelo de Gloucester, Regan e Oswald comentam que a tropa de Albany avança contra os franceses, sendo que, após muita pressão de Goneril, o seu esposo decidiu atacar os invasores. Ao comentar o caso de Gloucester, Regan diz que Goneril errou a cegar o conde e não o matar, já que sua presença ainda pode incitar forças contra eles.
O lamento de Lear
Numa planície perto de Dover, Gloucester é guiado por Tom (Edgar) até um desfiladeiro. Quando Gloucester questiona se já chegaram ao local, Edgar diz que já estão próximos, tanto que já é possível ouvir o mar. Na verdade, Edgar não está levando sei pai para o desfiladeiro. Então Edgar, fingindo que já chegaram, diz que ambos estão na ponta do desfiladeiro, e Gloucester pede para que ele se afaste, pois vai se jogar. O velho homem se ajoelha e diz aos deuses que renuncia ao mundo e pede para que abençoem seu filho Edgar. Após Gloucester pular sozinho no chão, Edgar fala com ele como se fosse outra pessoa, perguntando quem é ele e como sobreviveu após pular de uma altura tão grande. Também pergunta quem era a pessoa que estava do lado do velho antes dele pular, para que assim Gloucester acredite que ele não é o louco Tom.
Eis que chega o rei Lear, este que, já tomado pela loucura, vem fantasiado com flores selvagens. Falando coisas sem sentido, o monarca relembra a traição de Goneril e Regan. Ao ouvir a voz de seu rei, o cego Gloucester fica maravilhado por ele ainda estar vivo, mas também triste por ele estar louco. Pede para lhe beijar, onde Lear diz que primeiro precisa limpá-la, pois ele fede a mortal. Lear também fala sobre a cegueira de Gloucester, onde diz que, mesmo cego, Gloucester pode continuar sendo a autoridade que era. Sobre toda essa infeliz situação, diz que não adianta chorar, pois o sofrimento é parte da vida, tanto que nascemos chorando.
Quando chega um cavaleiro acompanhado de alguns criados, Lear continua falando suas maluquices e depois sai correndo, sendo seguido pelos criados. Edgar aproveita e pergunta sobre a batalha, sendo que o cavaleiro responde dizendo que as forças de Edmund se aproximam e que o combate deve acontecer em breve.
Gloucester, que ainda não percebeu que Edgar ao seu lado, pergunta quem é, sendo que o seu filho diz apenas ser alguém que sofreu na mão da má sorte. Gloucester agradece a sua ajuda e pede para que os céus o abençoem e paguem por sua ajuda e bondade.
Então chega Oswald, que estava caçando Gloucester a pedido de Regan. Querendo a recompensa pela cabeça do conde, Oswald lhe mostra a espada e diz que esse será o seu fim. Edgar se interpõem entre eles para salvar seu pai e mata Oswald. O subordinado de Goneril carregava consigo uma carta que deveria ser entregue a Edmund. Ao ler o documento, vê que ele foi escrito por Goneril, onde ela pede para que Edmund mate seu marido, duque Albany, para que os dois possam ficar juntos.
Com o soar dos tambores que anunciam o começo da batalha, Edgar pega seu pai pelo braço e o leva para um local mais seguro.
O reencontro de Lear e Cordélia
Numa tenda no acampamento francês, Cordélia conversa com Kent, este que não está disfarçado. Ela agradece a lealdade do bom cavaleiro, já que ele tentou defende-la contra a decisão injusta de Lear e, mesmo após banido, não deixou de desejar o bem do seu monarca. Ele agradece os cumprimentos e pede para que ela não revele a sua identidade, já que Kent precisa ficar disfarçado por mais um tempo.
Entra na tenda o médico que estava cuidando de Lear, este que ainda está dormindo e veio sendo trazido pelos seus criados. Cordélia se aproxima de sua liteira e lhe dá um beijo para o acordar. Emocionado ao reencontrar sua filha, Lear chora e lhe pede desculpas.
Um cavaleiro pergunta a Kent sobre a morte de Cornwall, sendo que ele também não sabe sobre o seu disfarce. O cavaleiro comenta que sobre rumores que dizem que após fugir de Gloucester, Edgar foi para a Alemanha se juntar com o banido Kent. Os dois saem para se prepararem para a batalha com Edmund.

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Esse foi o nosso comentário sobre o quarto ato de Otelo, onde falamos que Gloucester conhece o louco Tom, mas não sabe que é Edgar disfarçado. Também vimos que as forças francesas invadem a Grã-Bretanha e se preparam para enfrentar o exército inglês comandado por Edmund.
Eu sou Caio Motta e convido você a continuar acompanhando os nossos comentários sobre a grande obra de Shakespeare, bem como demais textos da grande literatura universal presentes no nosso blog.